‘somos todos arquitetos’: banca de trabalho final de graduação

Convido a todos os interessados a assistirem à apresentação de meu Trabalho Final de Graduação, intitulado Somos todos arquitetos, a ocorrer no dia 1º de março de 2012, às 16h00, na sala 807 da FAUUSP.

Convite para banca de TFG

resumo

Entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1980 uma certa atitude perante a prática da arquitetura passou a ser recorrente entre um conjunto relevante de arquitetos, seja na esfera da prática profissional, seja na esfera da produção acadêmica. Trata-se da participação — no caso, o da participação dos sujeitos envolvidos com a arquitetura a ser produzida pelos profissionais na sua elaboração e discussão. O tema da “participação do usuário” ganhou certo protagonismo neste período por um conjunto variado de fatores: desde uma insatisfação com a forma tradicional — considerada eventualmente autoritária em excesso — de se produzirem projetos de arquitetura como vinha sendo praticada pela arquitetura moderna até relações entre jovens arquitetos e movimentos de ordem contracultural e anarquista que questionavam os processos normativos que condicionavam a configuração do espaço construído, passando por tentativas de dotar a arquitetura de processos e métodos mais rigorosos, racionais e científicos, baseados na consulta aos atores envolvidos e em contato com pesquisas de outras disciplinas como a psicologia social, a teoria dos sistemas e a antropologia. Independentemente das razões, havia no ar uma cultura participativa que nos períodos posteriores, de algum modo, se perdeu ou passou a ser ignorada. Este trabalho busca averiguar este quadro discursivo, avaliando a produção teórica e prática do período a partir de um olhar freireano a fim de contribuir à discussão sobre a construção do que temos chamado de uma “pedagogia crítica da arquitetura”, ou seja, de uma produção dialógica do conhecimento arquitetônico. Traçamos assim nesta monografia um breve panorama das experiências e dos discursos ligados ao tema da participação no período a fim de pensar eventuais armadilhas discursivas de ordem ideológica ou conceitual e assim avançarmos no debate. Por meio da identificação de algumas tendências, ênfases e ideias-força neste conjunto de elementos destacados em nosso recorte, produzimos uma reflexão que entendemos ser relevante como contribuição ao melhor entendimento desta problemática.

Palavras-chave: participação; dialogicidade; história da arquitetura.

“se o crime não compensa… de onde os arquitetos tiram tanto dinheiro?”

A bem-humorada e altamente impactante imagem abaixo era usada como cartaz pelo coletivo ARC (Architect’s Revolutionary Council; Conselho Revolucionário de Arquitetos), formado por estudantes da Architectural Association de Londres nos anos 70. Situado em um contexto em que estudantes e jovens profissionais passavam a adotar práticas relacionadas com participação nos processos de projeto e obra, parece ser um dos poucos grupos de contestação da arquitetura hegemônica  do período em países centrais a tomar o problema da divisão social do trabalho como uma questão relevante na prática arquitetônica.

coletivo ARC; "se o crime não compensa… de onde os arquitetos tiram tanto dinheiro?"; cartaz; c. 1975

o advento do ‘meio-ambiente’

Em um dado momento do século XX, o conceito de “meio-ambiente” passou a frequentar de modos variados o imaginário das pessoas —seja pela sua presença cada vez mais constante na cultura de massas, seja pela forma como ele se integrou à agenda política e social —, tendo sido incorporado pelo vocabulário ideológico do capital como forma de se reinventar. Se o ‘meio-ambiente’ como categoria de análise do mundo e como plataforma de ação surgiu primeiro em movimentos contraculturais vários (e, numa outra medida, também no mundo acadêmico), ele foi logo adotado por organismos e empresas globais como elemento ideológico de autopreservação — “responsabilidade ambiental” tem sido o principal álibi do capital contra os ataques a ele dirigidos. O que é a atual ideia de sustentabilidade senão o instrumento usado pelo capitalismo para transformar a degradação em mercadoria (quantificável e negociável)?

Nos discursos arquitetônicos o advento do ‘ambiente’ como expressão de uma pauta política (em teoria) inovadora entra em contato (ora em choque, ora em complemento) com a ideia de “ambiente construído” que frequentava o vocabulário da época e que já gozava há algum tempo de um certo prestígio como designadora do campo intelectual específico da arquitetura enquanto disciplina.

método das camadas de ian mcharg

planejamento paisagístico-ambiental de ian mcharg. Fonte: http://bit.ly/thsKsB

Reinhold Martin, professor da Universidade de Columbia que já havia sido citado na postagem “‘pense diferente’”, tece os seguintes comentários sobre a construção em meados dos anos 70 da pauta do ambientalismo e dos discursos que fatalmente levariam à noção hoje tão falaciosa de sustentabilidade (e cuja falácia lá já se encontrava em estado germinal):

[…] No dia 1º de janeiro de 1970, o presidente dos EUA, Richard M. Nixon, sancionou a Lei da Política Ambiental Nacional (National Environmental Policy Act, NEPA), declarando que “os anos 70 devem absolutamente ser aqueles em que a América pague sua conta com o passado reivindicando a pureza de seu ar, de suas águas, e nosso ambiente de vida. É literalmente agora ou nunca.” Em 10 de fevereiro do mesmo ano Nixon delineou um programa antipoluição de 37 pontos, destacando que “na medida em que aprofundemos nossa compreensão de processos ecológicos complexos […] muito mais será possível.” Ao assinar o NEPA e ao assinar tais medidas antipoluentes Nixon, de modo implícito, invocou uma série de construções que eram simultaneamente buscadas por arquitetos e teóricos da arquitetura, entre outros. Fundamental entre tais construções estava um problema humano implícito, o habitante do “ambiente.” Para Nixon, assim como para muito do discurso ambiental e ecológico, este problema era um instrumento de integração a uma totalidade sociopolítica, ainda que com fins diversos. Mas o que espero aqui esclarecer é o nível com que o discurso arquitetônico também invocou este mesmo problema em uma tentativa de isolar a arquitetura como tal das forças sociotecnológicas e sociopolíticas em operação no discurso sobre o “ambiente”

[…]

Entre os encaminhamentos presentes na lei sancionada por Nixon (que resultou na formação da Agência de Proteção Ambiental mais tarde naquele ano) encontrava-se um que autorizava e orientava todas as agências federais a “utilizarem uma abordagem sistemática, interdisciplinar, que garantirá o uso integrado das ciências sociais e naturais assim como das artes do projeto ambiental no planejamento e na tomada de decisões que podem apresentar impacto no ambiente do homem.” Neste sentido, as “artes do projeto ambiental” encontravam-se bem preparadas. Por exemplo, em 1972 foi lançado o sétimo volume da série Vision + Value, editada pelo artista e teórico visual (assim como professor no MIT) Gyorgy Kepes, intitulado Arts of the Environment[Artes do ambiente]. Este livro, assim como os que o precederam na série, tomou o requisito interdisciplinar de modo consideravelmente literal, não por responder diretamente a ele (Kepes não era nenhum Nixonita) mas ao contrário ao empregar o que a legislação chamara de uma “abordagem sistemática, interdisciplinar” integrando as “ciências sociais e naturais” com “as artes do projeto ambiental”, um quadro que até então era típico do discurso ecológico. De fato, Kepes via tanto a arte quanto a humanidade no limiar de uma segunda ordem de adaptação evolucionária, uma “evolução autoconsciente” regulada pela comunicação social, na qual as aspirações de “vida repleta de arte” das vanguardas do início do século XX (nas quais Kepes tinha suas raízes) foram substituídos por uma simbiose “homem e ambiente” regulada por um complexo conhecimento interdisciplinar.

[…]

A iniciativa ambiental de Nixon também apareceu brevemente na época na obra Design, Nature and Revolution: Toward a Critical Ecology[Projeto, natureza e revolução: por uma egologia crítica], de Tomás Maldonado, a qual era a tradução revisada para o inglês publicada em 1972 de seu livro La speranza progettuale de 1970. Maldonado, que havia dirigido a Escola Técnica Superior da Forma em Ulm [Technische Hochshcule für Gestaltug] entre 1954 e 1867 com uma ênfase em uma ciência racionalizada do projeto, destacava a origem do termo ecologia no grego oikos, que significava “casa” ou “lar” e que também integra a raiz da palavra economia, com ambos os termos traduzindo etimologicamente como o “estudo” e a “administração” do lar, respectivamente. Apesar de Maldonado ter notado o sentido etimológico de ecologia, ele não notou a conexão com a economia, preferindo ao invés disto adotar a abordagem sistemática de Ludwig von Bertalanffy por meio de uma análise do “sistema social” construído em torno de uma oposição entre sistemas abertos e fechados, derivada da escola pós-weberiana de sociologia americana formada nos anos 1950 ao redor de Talcott Parsons. Este quadro referencial leva Maldonado a ler as revoltas mal-sucedidas ocorridas no fim da década de 60 através da noção de “equilíbrio dinâmico” de um sistema, uma tendência que absorveria e neutralizaria o conflito. E então nós o vemos referindo-se sarcasticamente à campanha ambiental de Nixon como uma evidência de uma neutralização, um fechamento autoritário imposto a um sistema social, refletida na apropriação de protocolos ecológicos, ou o que Maldonado chama de “moda da ecologia.” Como é colocado por ele em uma das muitas e extensas notas de rodapé de seu livro: “De fato, de um dia para outro, como se eles estivessem respondendo a um Diktat, todos os principais veículos da imprensa americana — Time, Newsweek, Life, Fortune, Business Week e até mesmo Playboy — ficaram extremamente interessados no tema.” Consequentemente, para Maldonado, a transformação era simples: “O escândalo da sociedade está culminando no escândalo da natureza.” Mas o verdadeiro escândalo, para o qual Maldonado permanece insensível apesar de seu discernimento crítico, encontra-se na naturalização de “ambiente” como um sistema significativo. [o último grifo é meu]

MARTIN, Reinhold. “Language — Environment, c. 1973″ in Utopia’s Ghost. Architecture and Postmodernism, again. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2010; pp. 50–54

Não é preciso lembrar: em 1972 ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (mais conhecida como Conferência de Estocolmo), considerada pelos ambientalistas como um marco de início de um pensamento que mais tarde estaria associado ao que o capitalismo chama de desenvolvimento sustentável. Dois anos antes a ONU também passaria a celebrar anualmente o “Dia da Terra” em 22 de abril.

tomás maldonado; projeto, natureza e revolução

fonte: http://bit.ly/uBiaeu

Martin segue explorando a problemática arquitetônica deste contexto de coisas (indo de Venturi a Einsenman, analisando as implicações discursivas que as diferentes formas de se apropriar das expressões sendo trabalhadas naquele momento propiciavam). Em particular, desenvolve uma curiosa e bem-articulada associação entre a busca de autonomia disciplinar realizada neste mesmo período pelas neovanguardas com uma espécie de “atitude protecionista” por parte da profissão, que estava prestes a sofrer profundas alterações com o vindouro processo de financeirização da mesma maneira que Estados tentavam — com as últimas medidas protecionistas levadas a cabo naquele momento e que logo se mostrariam ineficazes — evitar as transformações estruturais do capital, as quais, no entanto, eles iriam de todo modo logo assimilar.

Ao concluir o capítulo, destaca o seguinte:

Em 15 de agosto de 1971, Nixon promoveu nova iniciativa discursiva, a qual ele relatou em um informe televisionado sobre a política econômica: “Solicitei ao Secretário [da Fazenda, John B.] Connaly que suspendesse temporariamente a conversibilidade  do dólar no ouro ou em outras reservas.” Tal medida, uma tentativa protecionista de estancar a inflação ascendente, tornou-se permanente em 1973. Aquele ano também assistiu à substancial elevação no fluxo de petrodólares especulativos como resultado do quádruplo aumento nos preços da energia durante o embargo de petróleo da OPEP, o qual efetivamente minou os esforços do estado para proteger sua moeda. […] Nas décadas posteriores [ao acordo de Bretton Woods, que vinculava o dólar ao padrão-ouro], através de ciclos inflacionários, o suprimento de dólares no mercado internacional chegou a exceder enormemente às reservas de ouro mantidas pelo Tesouro estadunidense. Em outras palavras, na linguagem da semiótica, o signo desvinculou-se de seu referente, ou o significante de seu significado.

[…]

Era neste contexto [o autor refere-se aqui ao início de um período histórico em que o capitalismo passa a se caracterizar por intensa financeirização] que Nixon também declarou, ao assinar a lei do Programa das Nações Unidas para o Ambiente de 1973 que “nós possuímos a Terra — seu ambiente e seus recursos para a confiança das futuras gerações,” uma assertiva que mais uma vez colaborava no obscurecimento da função pragmática de seu ambientalismo, em um momento em que sempre crescentes camadas de abstração lógico-matemática de uma economia global das materialidades — seja na forma de trabalho, terra, petróleo ou edifícios — de que o valor era originalmente extraído. […]

Idem, ibidem, pp. 64–65

Whole Earth Catalog de Stewart Brand

Whole Earth Catalog de Stewart Brand (de um velho hippie tecnológico a um emprendedor da "economia criativa")

o pesquisador contingente

Passagem do livro Architecture Depends, de Jeremy Till, citado na postagem anterior, sobre a necessidade do pesquisador incorporar a contingência em seu trabalho:

Acadêmicos vivem com medo de serem pegos — “Mas como você pode levar isto a sério, ele/ela não leu XYZ” — então empregam variadas estratégias de gestão de risco. Uma delas é citar absolutamente tudo: isto não significa necessariamente que os textos a que o pesquisador se refere sejam ao menos lidos, muito menos tomados criticamente, mas dão-lhe cobertura. A segunda estratégia diz respeito a citar apenas os clássicos, os originais, os atuais líderes em seus respectivos campos. […] Qualquer assunto é então enquadrado pelos clássicos, e pode-se apenas propor pequenas alterações nos argumentos que orbitem este quadro. A terceira estratégia de gestão de risco envolve permanecer firmemente no interior dos limites da respectiva disciplina. Entretanto, todas estas estratégias estão sujeitas a falhar: sempre há um outro livro que ainda não foi lido, uma outra ideia que ainda não foi assimilada. Então se a pesquisa é uma combinação de diligência (gestão de risco) e sorte, também é aceitável bem receber a contribuição da sorte. […] Surgem portanto aqueles momentos em que se está lendo um livro e repentinamente torna-se necessário reconsiderar as hipóteses e ideias que vinham sendo desenvolvidas linearmente ao longo dos anos. Para mim, tais livros foram A produção do espaço de Henri Lefebvre, Modernidade e ambivalência de Zygmunt Bauman e Nunca fomos modernos de Bruno Latour, os quais me lançaram a novos territórios.

Meu argumento, grosso modo, é que a pesquisa é contingente e nada melhor que se assuma tal contingência como uma oportunidade para uma síntese produtiva ao invés de tomá-la como um obstáculo ao rigor acadêmico. O pesquisador contingente deliberadamente atravessa os limites de sua própria disciplina, sabendo que forasteiros frequentemente enxergam o óbvio que os íntimos daquela disciplina não percebem e reconhecendo também que mudanças de paradigma são normalmente iniciados no exterior e não no interior de um dado campo. O pesquisador contingente recebe cada novo livro com um senso de curiosidade, não com um senso de dever. O pesquisador contingente celebra os eventuais choques causados por novas ideias. Isto pois a pesquisa não é um procedimento tão linear como pode-se acreditar mas uma jornada por rizomas intelectuais. (A expressão é de Deleuze e Guattari; serei honesto aqui dizendo-lhes que eu nunca fiz mais que mergulhar no livro em que eles constroem tal argumento, Mil Platôs. O problema é: eu deveria adicioná-los à minha bibliografia como parte de minha estratégia de gestão de risco?). De todo modo — e este é o ponto vital do meu argumento — o pesquisador contingente não é um relativista. Não é o caso de qualquer texto ou ideia ser igualmente relevante ou ter o mesmo status. A jornada pelos rizomas não é uma sequência aleatória; ela possui uma direção determinada — guiada pelo problema da pesquisa — mas o destino não é em absoluto fixado. As contingências que surgem no meio do caminho não são portanto vistas como fragmentos concorrentes, mas como um campo de oportunidades a serem recolhidas em medida maior ou menor, e então filtradas de acordo com os objetivos do projeto. O pesquisador contingente deve ser suficientemente ágil, assim como suficientemente modesto, a fim de permitir que seus objetivos sejam transformados por outros eventos e ideias, mas ao mesmo tempo determinado o bastante para que não seja esmagado por eles.

A operação própria ao pesquisador contingente, como veremos, não é tão distante assim daquela do arquiteto contingente.

TILL, Jeremy. Architecture Depends. Cambridge: MIT Press, 2009; pp. 47–48.

Ainda não sei se é melhor traduzir “contingent researcher” como “pesquisador contingente” ou como “pesquisador contingenciado”.

O argumento de Till não é inédito, mas é interessante a forma como ele o coloca. Não se trata de um texto acadêmico e a ironia dele é por vezes irritante, assim como o pensamento que beira o pós-moderno irresponsável (ainda que ele tenha feito a devida reserva quanto ao pensamento relativista), mas ainda assim vale a pena registrar.

ainda le corbusier em pessac: “necessidade” e “função”

le corbusier; residência em cité frugès (fonte: http://www.flickr.com/photos/lamachineahabiter/6213446711/)

fonte: http://www.flickr.com/photos/lamachineahabiter/6213446711/

Jeremy Till, arquiteto e professor britânico, tece algumas breves considerações sobre a Cité Frugès, projeto de Le Corbusier em Pessac, Bourdeaux (França) que já havia sido comentado aqui:

Em sua meticulosa documentação da moradia em Pessac, Philippe Boudon argumenta que a combinação do projeto original de Le Corbusier com as irrepreensíveis tendências “faça-você-mesmo” de parte de seus habitantes levaria a uma inevitável inundação daquele pelas urgências da vida cotidiana destes. “O fato relevante”, escreve Henri Lefebvre, o filósofo do cotidiano, em sua introdução ao livro de Boudon, “é que em Pessac Le Corbusier produziu um tipo de arquitetura que acomodava-se à conversão e a ornamentação escultórica. […] E o que adicionaram os moradores? Suas necessidades.”

Suas necessidades. Tão simples quanto isto. De fato, trata-se de fato tão simples que nós nos perguntamos por que um grande filósofo importar-se-ia com isto. É necessário, porém, afirmá-lo com toda a força filosófica a fim de reforçar que a arquitetura nunca pode controlar totalmente as ações de seus usuários. Na arquitetura, e assim se pretende, as necessidades são persuadidas em funções e portanto sujeitas a um controle normalizador. Funções (matemáticas, científicas, lineares) são, no entanto, muito diferentes de necessidades (repletas que são de desejos, diferenças e demandas) e no fundo, está claro, em Pessac as necessidades dos moradores emergiram para solicitar a arquitetura. A distância entre funções e necessidades é apenas uma entre as muitas brechas que separam a arquitetura como ela pretende ser e a arquitetura como ela é.

[…]

Em um de seus primeiros livros, Della tranquilita dell’animo, o arquiteto e teórico renascentista Leon Battista Alberti recomenda àqueles que queiram relaxar em tempos de tensão ou ansiedade que busquem conforto no devaneio arquitetônico: “e às vezes acontecia de não apenas eu me acalmar quando da inquietação de meu espírito, mas de pensar nas coisas mais raras e memoráveis. Às vezes eu desenhava e construía edifícios belamente proporcionais em minha mente […] e a ocupava com tais construções até que eu caísse de sono.” Pessoas normais recorrem à contagem de ovelhas quando querem dormir. Arquitetos do Renascimento, à proporção da arquitetura. Tanto ovelhas (aos cosmopolitas) quanto belas arquiteturas situam-se naquela zona crepuscular entre o dia e a noite, entre realidade e sonho — e quando alguém desperta de manhã resta-lhe não mais do que uma memória quimérica, revelando a perfeição da forma como uma miragem nunca a ser alcançada.

TILL, Jeremy. “Counting Sheep” in Architecture Depends. Cambridge: MIT Press, 2009; pp. 41–44

le corbusier; cité frugès (fonte: http://www.flickr.com/photos/lamachineahabiter/6211616051/)

fonte: http://www.flickr.com/photos/lamachineahabiter/6211616051/

E, em um trecho anterior do texto, Till, com o mesmo tom irônico de um ensaio que não se pretende acadêmico, pondera o que segue:

Em uma reveladora passagem presente em Quando as catedrais eram brancas, Le Corbusier encontra-se em uma estação ferroviária de Bourdeaux e faz anotações do que ele vê:

A estação é repugnante. Nem um funcionário na plataforma lotada. Um oficial com uma insígnia dourada não sabe dizer quando chegará o trem de Paris. No escritório da coordenação eles são evasivos, ninguém preciso. Descontentamento generalizado, imundície ofensiva, o piso é negro, danificado, as imensas janelas são escuras. Às 21h00 o expresso para na plataforma n.º 4 repleta de caixas com vegetais, peixes, frutas, chapéus, caixas vazias retornadas.

Esta breve passagem nos diz tudo o que precisamos saber sobre os medos de Le Corbusier com seu “outro.” Sujeira, multidões indisciplinadas, tempo perdido, respostas inexatas, construções danificadas, a falta de branco e a contaminação entre categorias (roupas com comida). Caos e transgressão em todo lado. Mas o que é realmente revelador é que Le Corbusier sutilmente nos indica o motivo de sua passagem pela estação de Bourdeaux. É como se em sua jornada da estação até o subúrbio Le Corbusier se livrasse das presenças incontingentes, chegando então purificado a Pessac. Lá os edifícios são puros, ordenados, limpos, progressistas — tudo o que a estação de Bourdeaux não é. Ele atingiu “o milagre do espaço inexprimível […] uma profundidade sem limites abrindo-se […] presenças contingentes colocadas em fuga.” Bem, ele o atingiu em sua mente. Uma vez que ele vire as costas, as coisas começam a desenredar.

TILL, Jeremy. “The ridding of contingency” in Architecture Depends. Cambridge: MIT Press, 2009; p. 37

O que é realmente interessante nesta passagem é a rápida associação feita entre “necessidade” e “função”: a tradução das necessidades das pessoas (fundamentalmente subjetivas, às vezes ininteligíveis à primeira vista, às vezes mesmo invisíveis sob um manto de preconceitos e obstáculos sociais, sujeitas que são à ação da ideologia dominante, muitas vezes complexas demais para serem mesmo “tabuladas” em um fluxograma qualquer) em “funções” (que são naturalmente precisas, bem delimitadas e claramente distinguíveis umas às outras) não é algo evidentemente natural, mas trata-se claramente de uma operação intelectual em que não inexiste a interferência de qualquer tipo de poder (seja pelo aspecto seletivo desta operação — por se tratar antes de tudo de um filtro —, seja pelo aspecto tecnicista a ela inerente). Till, no fundo, questiona o programa arquitetônico (mesmo após ter questionado, em outras passagens do livro, movimentos das neovanguardas associados à autonomia da forma).

Justo o programa, este elemento constituinte de processos de projeto tão naturalizado no discurso de qualquer arquiteto, tão presente no conjunto de valores da profissão, algo ensinado aos primeiranistas desde seus primeiros momentos na faculdade — e, cabe lembrar, algo fundamental para transformar em mercadoria o projeto e a obra. Embora Till não se preocupe em questionar as relações de produção próprias do objeto arquitetônico (onde certamente ele encontraria uma miríade de novas contradições), este breve questionamento do programa já é suficiente para tornar sua leitura interessante.

Mesmo arquitetos importantes no cenário contemporâneo nunca questionaram o programa. Ao contrário, o celebrado Koolhaas e seu OMA, por exemplo, tornaram-se célebres justamente por promover um discurso arquitetônico baseado em uma exploração excessiva de questões programáticas.

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Algumas questões para o futuro: em que medida certos processos ditos “participativos” (ou “participativistas”) de fato contribuíram para a superação desta dicotomia “necessidade” x “programa”? Muitos destes processos, ao contrário de sua pretensa bem-intencionada orientação, podem no fundo aprofundar a burocratização do programa — ou mesmo sua mercantilização, visto que “necessidades” de atores diferentes passem a ser negociadas não de forma política mas de forma econômica, atribuindo-se um peso a cada uma delas —, por meio de bem-intencionadas “tabulações” de desejos, anseios, etc (não parece ser o caso dos processos que tenho visto ocorrerem no Brasil contemporâneo, no entanto, cuja complexidade transcende em muito o contexto presente da citação anterior).

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As imagens presentes nesta postagem pertencem ao projeto de pesquisa La machine à habiter e não possuem qualquer relação com os textos citados.

desconstruindo a foxconn

Em continuidade à postagem anterior, segue um breve documentário realizado por um conjunto de pesquisadores ligados a universidades chinesas e de Hong Kong como parte de uma força-tarefa reunida por autoridades governamentais para averiguar as condições de trabalho na Foxconn, empresa responsável, entre outros, pela produção dos produtos Apple. Em 2010 houve 18 tentativas de suicídio por parte dos operários da empresa. De origem taiwanesa, ela é responsável por empregar cerca de 900 mil pessoas na China.

Deconstructing Foxconn from Jack Qiu on Vimeo.

Apesar do esforço do governo em reunir pesquisadores e professores universitários para averiguar as condições de trabalho — tarefa que deveria ter sido conduzida paralelamente por órgãos policiais… —, é possível que a iniciativa tenha sido mero instrumento de deslegitimar as acusações. Pelo teor do documentário, porém, passa-se ao mundo ocidental (visto que foi traduzido para o inglês) a sensação de que de fato se estão apurando os crimes da empresa.

É muito provável que a maioria de nossos computadores, celulares ou outros dispositivos de uso cotidiano tenham passado integral ou parcialmente pelas maltratadas mãos destes anônimos operários chineses, mesmo que ignoremos totalmente o fato (além da Apple, a Foxconn tem contratos com HP, Acer, Dell, Nokia, Nintendo, Microsoft, Sony, entre outras). Estas mortes na China estão mais próximas de nosso cotidiano do que imaginamos.

Em complemento, segue animação interessante sobre processos de reificação e fetichismo da mercadoria (dica do catatau):

— ‘eles roubaram nossas ideias’ … — ‘Receio que nunca tenham sido nossas’

O quadrinho abaixo é bastante feliz em sintetizar as mudanças sofridas no capitalismo por conta da financeirização e nas estratégias das esquerdas dos anos 70 para cá:

Mas Ilitch, eles roubaram nossas ideias!

"Mas Ilitch, eles roubaram nossas ideias!" Fonte: http://passapalavra.info/?p=44639. Original em espanhol: http://qu-miras.blogspot.com/2011/03/que-hacer.html

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Notícia recente do Portal IG indica que a empresa chinesa Foxconn já esteja operando na cidade paulista de Jundiaí. Celebrou-se tanto o fato de passarmos a produzir em terras tupiniquins os adorados produtos da Apple que se chegou mesmo a batizar a patética alça de acesso à fábrica de Rua Steve Jobs.

A Foxconn, parceira chinesa da Apple no negócio bilionário de produzir os celebrados iPhones, iPods e iPads, tem sido recentemente alvo de denúncias de organizações ligadas aos direitos humanos pelas péssimas condições de trabalho a que são submetidos seus operários. A empresa emprega mais de 400 mil trabalhadores apenas em uma de suas plantas. O caso mais grave envolveu o suicídio de 18 trabalhadores chineses que não suportaram o efetivo “campo de concentração” em que viviam. Como se sabe, na China a organização sindical é praticamente neutralizada pela repressão do Estado, de modo a inviabilizar qualquer protesto por parte dos trabalhadores em prol de melhores condições e salários. A nova elite econômica chinesa, no entanto, tem comemorado a fabricação de produtos Apple no país e considera críticas como as feitas à Foxconn como uma espécie de atitude antinacionalista.

A situação chegou a tal absurdo que a Foxconn passou a exigir dos operários que assinassem contratos em que eles se comprometiam a permanecerem vivos!

grades nos alojamentos da Foxconn

Alojamentos da Foxconn. Fonte: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1285980/Revealed-Inside-Chinese-suicide-sweatshop-workers-toil-34-hour-shifts-make-iPod.html

Os casos de suicídio, no entanto, são — não sei se felizmente ou infelizmente, dada a violência das condições de exploração deste novo proletariado — residuais, pois a maior parte dos operários chineses da Foxconn sentem-se efetivamente parceiros da empresa e são bastante orgulhosos de produzirem os amados iGadgets. Consideram-se privilegiados em fabricarem os produtos, numa atitude que em outros contextos da mesma China já foi comparada a de nossos candangos durante a construção da Brasília que lhes foi negada.

A filial brasileira da Foxconn já nasce problemática: os funcionários são revistados diariamente e se submetem a detectores de metal mesmo quando usam o sanitário. A empresa interfere mesmo em seu cotidiano doméstico: conversas com familiares e amigos sobre o trabalho que fazem são proibidas e podem levar a demissões por justa-causa, visto que os operários assinam contratos de confidencialidade.

Alojamentos da Foxconn

Alojamentos da Foxconn. Fonte: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1285980/Revealed-Inside-Chinese-suicide-sweatshop-workers-toil-34-hour-shifts-make-iPod.html

Trata-se de estratégia já conhecida do capitalismo contemporâneo: incorpora-se à cultura empresarial o vocabulário antes associado à contracultura e às esquerdas libertárias em que se reúnem palavras como colaboração, participação, autonomia a fim de tratar o proletário como um suposto parceiro no processo produtivo, tratando de reduzir ou mesmo de eliminar completamente todas as proteções sociais a que ele conquistara no período anterior do capitalismo de bem-estar social. Na China, a novilíngua socialista-nacionalista-capitalista atrapalha ainda mais tudo: os jovens trabalhadores chineses nas empresas transnacionais seriam no fundo valentes soldados trabalhando pelo triunfo do país e de seu esquizofrênico socialismo.

O discurso da participação em ambientes empresariais é fascinante pelo seu poder quimérico em produzir uma ideologia geradora de exploração violenta de mais-valia, quase de modo consciente por parte do trabalhador.

Parceiros, afinal, não precisam de seguro-desemprego, férias remuneradas, horas-extras reguladas, aposentadoria, etc. Parceiros têm a autonomia de dar o sangue pela empresa, dedicando-se totalmente a ela e recusando relações de trabalho antiquadas e apostando na precariedade da colaboração. Assusta-me o quanto este discurso está introjetado mesmo entre colegas formados ou formandos quando discutem o tal mercado de trabalho de arquitetura.

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Segundo o pesquisador Pedro Arantes, comentando a obra de Sérgio Ferro:

A figuração desse novo canteiro [refere-se aqui à proposta de relações de produção da arquitetura baseada no trabalho livre, como formulado por Sérgio Ferro ao longo de sua obra teórica desde os anos 60] descrito por Sérgio [Ferro] precisa, entretanto, ser vista hoje diante das transformações pelas quais passou o capitalismo nos últimos trinta anos, com o aparecimento de novas formas de produção. Se, por um lado, a produção da arquitetura segundo as novas relações de trabalho sugeridas por Ferro tem como pressuposto transformações sociais radicais, por outro, possui semelhanças inesperadas com as formas pós-fordistas de organização técnica do trabalho. A proximidade não é casual, pois a crítica de Sérgio estrutura-se sobre o modelo de organização “fordista”, onde o trabalho é realizado de forma mecânica e idiotizada. Na produção flexível, em sua forma industrial (o “toyotismo”), ao contrário, espera-se a colaboração inteligente de cada operário, que ele conheça toda a linha de produção e participe na descoberta de novas técnicas de produção. O trabalho não sofre mais as mesmas cisões, pois valoriza-se o team work, a cooperação e a identidade com a empresa. O vocabulário da criatividade, autonomia, iniciativa e participação substitui o das palavras carregadas de opressão do fordismo e embaralhou os termos da luta política e sindical.

Esta nova organização estabelecida pelo capital, por sua vez, não tem nada de emancipatória, ao contrário, representa um aumento vertiginoso da dominação. Não se trata de uma autonomia conquistada, mas imposta, juntamente com a diminuição dos direitos e proteções sociais. A diferença é que a dominação tornou-se menos explícita, não sendo mais identificável na figura do capataz e nas repressões físicas — houve uma espécie de interiorização em cada indivíduo das normas e coerções da própria lógica do capital.

[…] É como se a crítica de esquerda ao fordismo acabasse sendo adotada pelo capital nas suas formas de organização técnica do trabalho, só que com o sentido inverso: a seu favor. Essa é a tese, por exemplo, de Jean-Pierre Le Gof, segundo a qual a ruptura antiautoritária de maio de 68 deu origem às formas contemporâneas de management.

ARANTES, Pedro. Arquitetura Nova. Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. São Paulo: Editora 34, 2002, pp. 120–124.

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No livro Infoproletários há uma série de análises desta conjuntura. Seguem algumas passagens do artigo de Ricardo Antunes que encerra o volume.

Sabemos que, a partir dos anos 1970, o capital implementou um processo de reestruturação em escala global, visando tanto à recuperação do seu padrão de acumulação, quanto procurando repor a hegemonia que vinha perdendo, no interior do espaço produtivo, desde as explosões do final da década de 1960 onde, particularmente na Europa ocidental, se desencadeou um monumental ciclo de greves e lutas sociais.

Foi nesse contexto que o capital, em escala global, veio redesenhando novas e velhas modalidades de trabalho — o trabalho precário — com o objetivo de recuperar as formas econômicas, políticas e ideológicas da dominação burguesa.

Proliferaram, a partir de então, as distintas formas de “empresa enxuta”, “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário” etc., dentre os mais diversos modos alternativos de trabalho precarizado. E os capitais utilizaram-se de expressões que, de certo modo, estiveram presentes nas lutas sociais dos anos 1960, como controle operário e participação social, para dar-lhes outras configurações, muito distintas, de modo a incorporar elementos do discurso proletário, porém, sob clara concepção burguesa. O exemplo das cooperativas talvez seja o mais eloquente, uma vez que, em sua origem, elas eram reais instrumentos de luta e defesa dos trabalhadores contra a precarização do trabalho e do desemprego.

O que vem fazendo os capitais em escala global: criando cooperativas falsas, como forma de precarizar ainda mais os direitos do trabalho, quando não sua destruição.

Segue o trecho mais interessante e revelador:

[…] Através da telemática e das tecnologias de informação (além do avanço das formas de flexibilização e precarização do trabalho que estamos indicando), com o avanço da horizontalização do capital produtivo, o trabalho produtivo doméstico vem presenciando formas de expansão em várias partes do mundo. Desse modo, o trabalho produtivo a domicílio mescla-se com o trabalho reprodutivo doméstico, aumentando as formas de exploração do contingente feminino.

[…]

Esses contingentes [refere-se a trabalhadores de setores como do telemarketing e call centers, fast food, motoboys, etc] são partes constitutivas das forças sociais do trabalho que Ursula Huws sugestivamente denominou como cibertariado — o novo proletariado da era da cibernética que vivencia um trabalho (quase) virtual em um mundo (muito) real, para lembrar o sugestivo título de seu livro que discorre sobre as configurações do trabalho na era digital, informática e da telemática —, novos trabalhadores e trabalhadoras que oscilam entre a enorme heterogeneidade (de gênero, etnia, geração, espaço, nacionalidade, qualificação, etc) de sua forma de ser e a impulsão tendencial para uma forte homogeneização que resulta da condição de precariedade dos distintos trabalhos.

ANTUNES, Ricardo. “Século XXI: nova era da precarização estrutural do trabalho?” in ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy. Infoproletários. Degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009, pp. 233–237.

‘pense diferente’

IBM; "Pense".

IBM; "Pense".

Reinhold Martin (citado na postagem anterior sobre arquitetura pós-moderna) assim inicia o primeiro capítulo de seu livro Utopia’s Ghost:

“Pense.” Por volta de 1911 este já havia se tornado um lema corporativo. Por volta dos anos 30, na forma de slogan da International Business Machines (IBM), ele anunciava a formalização do que viria a ser conhecido no início dos anos 70 como o imaterial ou a produção pós-Fordista*. Em 1997, em um tardio ato de reconhecimento do motor afetivo, contracultural, que guiava a economia “global” neoliberal, este lema já havia sido transladado pela concorrente da IBM, a Apple Computer, no slogan “Pense diferente.” O estado de coisas a que estes eventos pertencem adquiriu ao longo do tempo uma variedade de nomes. Em 1973, Daniel Bell anunciou entusiasmadamente o “advento da sociedade pós-industrial.” No fim da década de 1980, Gilles Deleuze o caracterizou como a “sociedade do controle.” Mais recentemente, Alan Badiou o chamou de “segunda Restauração”. E em uma linha afim deleuzo-foucaultiana, Antonio Negri e Michael Hardt o chamaram de “Império”. Mas na esfera cultural, a expressão que continua a perseguir todas estas outras, seja como consequência ou como precursora é uma das favoritas de muitos outros teóricos, iniciando nos anos 70 e persistindo até os 90: simplesmente, pós-modernidade.

MARTIN, Reinhold. Utopia’s Ghost. Architecture and Postmodernism, again. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009.

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* De acordo com seus biógrafos, em 1911, ainda como administrador no National Cash Register (NCR), Thomas J. Watson escreveu a diretriz “PENSE” em uma lousa durante uma apresentação para capturar a atenção da sua equipe de vendas. O fundador do NCR, John Henry Patterson, inseriu então o lema em cada um dos departamentos da empresa. Contratado em 1914 pelo investidor Charles Flint para conduzir a Computing—Tabulating—Recording Company (CTR), a qual antes fundira-se com a Tabulating Machine Company de Herman Hollerith, Watson levou o slogan com ele para a nova companhia, posicionando-o também em cada cômodo da empresa. Em 1924, ele alterou o nome da Companhia para International Business Machines (IBM). Thomas Graham Belden; Marva Robins Belden. The Lengthening Shadow (Boston: Little Brown, 1962) 157–159. Por volta da primeira metade da década de 1930; “PENSE” havia se tornado o lema não oficial da empresa. Identificando o pensamento produtivo com a lealdade e o conformismo, ainda que aparentemente encorajando a autonomia intelectual, o slogan produz um duplo vínculo que corresponde à consolidação da “produção imaterial” como uma característica definidora do capitalismo corporativo de fins do século XX. Sobre a produção imaterial e seus correlatos, v. em particular Lazzarato; Immaterial Labour; 133–147

Semana passada estive na FAUUSP no dia seguinte ao falecimento de Steve Jobs. Todos os computadores ao meu redor conectados à internet mostravam em algum momento a imagem deste que foi provavelmente o mais relevante nome do capitalismo contemporâneo. Capital acumulado a tal ponto que se torna imagem…

Jobs ganhava alguns trocados na faculdade vendendo pequenos aparelhos que permitiam efetuar ligações telefônicas gratuitas — deliciosamente ilegais — de longa distância, os quais ficaram conhecidos por “blue boxes”. Pode parecer um fato menor mas ele é interessante: Jobs e seu colega Steve Wozniak (futuro co-fundador da Apple com o primeiro) conseguiram de forma brilhante transformar um macete técnico conhecido apenas por alguns poucos entusiastas “contraculturais” da eletrônica (conhecidos naquele momento por phone phreaks — os “esquisitos do telefone” —, sujeitos que dariam origem ao que hoje conhece-se vulgarmente por “hacker“) em um produto facilmente manipulável por leigos no assunto. Jobs usaria esta imagem (a da criação de “computadores que qualquer um pode usar”) para construir a sua própria figura de empreendedor preocupado mais com as pessoas que com os produtos.

A relação entre a nascente indústria da microinformática pessoal em fins dos anos 70 e início dos anos 80 e o universo da contracultura (caracterizado no meio técnico informático por aquilo que costuma ser chamado de “cultura hacker”) é bastante interessante e merece estudos mais detalhados posteriores. Trata-se de um momento curioso da história em que alguns jovens cabeludos idealistas transformam-se em alguns poucos anos em magnatas corporativos e yuppies descolados. O livro From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism de Fred Turner explora um pouco esta história, ainda que de forma um tanto quanto apaixonada, apresentando uma linha evolutiva — claramente instrumentalizada, ainda que bem construída — que vai da contracultura dos anos 70 à “cibercultura” contemporânea.

Esquerda: construção da sede da Fundação Lama. Direita: Steve Wozniak lavando louça na Primeira Conferência Hacker

Esquerda: construção da sede da Fundação Lama. Direita: Steve Wozniak lavando louça na Primeira Conferência Hacker

As duas imagens acima constam do livro de Turner: a primeira delas retrata a construção ritualística de uma estrutura baseada em domo geodésico (o qual foi adotado nos anos 60 como uma expressão contracultural, por algum motivo que ainda não entendi completamente) na sede da Fundação Lama, uma entidade contracultural fundada nos anos 70 no Novo México por um grupo de artistas ligados ao tal Stewart Brand do título do livro, que por sua vez editava um tal Whole Earth Catalog que teria influenciado gerações de “hackers” contraculturais. Aparentemente Brand é o autor da famosa frase A informação quer ser livre (“Information wants to be free”, adotada pelo movimento da “cultura livre”: software livre, Wikipédia, Creative Commons, etc). Já a segunda imagem apresenta uma situação inusitada ocorrida na “Primeira Conferência Hacker”: os conferencistas, em um espírito altamente evocativo da cultura “faça você mesmo” e da autogestão de maio de 68, lavam eles mesmos a louça usada durante o almoço no evento (que, apesar do nome, tinha caráter acadêmico e corporativo). A cena ocorreu em 1984, ano de lançamento da primeira versão do computador Macintosh. Uma das figuuras presentes na imagem é o próprio Steve Wozniak.

Naqueles anos algumas palavras que estavam na moda entre o pessoal que circulava em ambientes “contraculturais” eram “meio-ambiente”, “ambientalismo”, “participação”, “autonomia”, entre outras. O capitalismo pré-crise já havia se apropriado de todas estas expressões em sua face “sustentável”, adotando atitudes de “colaboração” entre “consumidores conscientes”. O capitalismo pós-crise vai pelo mesmo sentido, mas desta vez com presença do Estado na salvação dos mercados falidos.

Ao comentar a trajetória da arquitetura britânica ao longo do século XX, Frampton faz, na História Crítica da Arquitetura Moderna, uma breve associação com uma certa “linha evolutiva do domo geodésico” que teria surgido com Buckminster Fuller (e que teria a ver com os megaestruturalistas, team 4 e portanto Foster, etc). Chega a ser curioso que em fins da década de 2000, no ápice da crise, o escolhido pela Apple para construir sua nova sede seja o escritório de Norman Foster (aliança entre o velho capital industrial travestido de capital cultura descolado e um arquiteto global que trabalha com capitalistas e com sheiks árabes cujas origens estaria na velha geodésica contracultural).

 Apple; "Pense diferente"; 1997

Apple; "Pense diferente"; 1997

Em tempo: as breves análises do pessoal do Observatório da Imprensa sobre Steve Jobs parecem ser o que de melhor se produziu na grande mídia brasileira. Entre muitos adoradores cegos do espetáculo fechado e monopolista promovido pela Apple, é importante haver alguns poucos mas persistentes incomodados.

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Alguns anos atrás ninguém diria que haveria protestos de massa —anticapitalistas! — em Wall Street, com direito a discurso de Slavoj Žižek. Toda esta movimentação, porém, já é tomada por espetáculo e rapidamente incorporada pelo sistema.

Este foi um ano curioso para a cultura de massas. O Super-Homem, personagem símbolo do “sonho americano” durante tantas décadas, renunciou à cidadania estadunidense no início do ano e reapareceu nos últimos meses como um campeão das classes oprimidas, vestindo calças surradas e botas gastas — uma espécie de “Superman versão Bruce Springsteen”, nas palavras do autor Grant Morrinson. Em outras palavras: o mercado do entretenimento já lucra com as representações da crise do capitalismo — mesmo que seus consumidores não percebam. A edição da revista Action Comics em que é apresentada esta versão proletária do sonho americano esgotou e recebeu oficialmente três reimpressões.

Não seria surpreendente que a próxima campanha publicitária da Apple apresentasse imagens dos manifestantes em Wall Street, alegando que nada daquilo teria sido possível sem a presença dos maravilhosos aparelhos mágicos possibilitados por Jobs…